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Pedra da Divisa, São Bento do Sapucaí - SP.

No início deste ano, em janeiro, aconteceu um acidente fatal com um escalador australiano em Pierces Pass, Blue Mountains (AUS). A causa do acidente foi uma (na verdade todas) proteção fixa mal colocada que se soltou ocasionando na queda do guia e consequente rompimento da corda numa borda afiada.

Para ler o "laudo" feito pelo fotógrafo Simon Carter, clique aqui (em inglês)!

Para ler as discussões no fórum da Escalada Brasil sobre o acidente, clique aqui!

Esse vídeo mostra o estado das outras proteções da via... A rocha é um sabão!!!

Em decorrência deste acidente, resolvi escrever um artiguinho sobre como colocar uma proteção fixa para que erros primários como os que aconteceram em Blue Mountains não se repitam mais.

Antes de mais nada é muito importante deixar claro que quando você for abrir uma via, e consequentemente colocar uma proteção fixa, estará assumindo uma grande responsabilidade, pois muitas pessoas passarão pela sua via (se ela for boa!); algumas cairão nas proteções; outras irão se ancorar no meio da via irão montar um rapel dali mesmo; e outras pessoas sem noção irão fazer coisas que você jamais imaginou (tipo, montar uma tirolesa!). Por isso, tenha sempre em mente: cada proteção precisa ser a prova de bomba e louco desmiolado.

Outra coisa, uma pessoa normal, ao ver 1 proteção na via, irá acreditar cegamente que aquela proteção é segura e que está bem colocada. Não vai desconfiar que poderá estar numa laca solta, que não expandiu legal, que ficou raso o buraco, que tem apenas 2 cm para dentro da rocha... Se a proteção estiver lá, e tiver uma cara boa, as pessoas, inclusive eu, irão confia-la. Nunca saberemos como está por dentro, quanto tem para dentro, como ficou a proteção e tal. Isso, só o equipador saberá! Perceberam o grau de responsabilidade?


Naoki Arima equipando uma via em Viana - ES, Setor Capeta. Foto: Afeto

Questão dois: Entender um pouco de geologia, tipo de rocha. Não vou ficar dando uma aula de geologia para explicar isso. A dica é muito mais simples! Pergunte! Pergunte a quem já conquistou no sítio de escalada ou pela região, qual o melhor tipo de proteção para aquela rocha. Agora se você estiver conquistando em uma área nova ou remota, pergunte novamente. Há diversos fóruns de escalada na internet. Vá atrás! Mas nunca use o achômetro!

Para texto não ficar muito longo, vamos a receita de bolo:

Antes de mais nada, certifique-se sobre a ética local. Uns anos atrás, uns gringos vieram para o Brasil, abriram uma via no Pão de Açúcar e depois descobriram que naquela face era proibido abrir vias. Conclusão, todas as proteções foram retiradas. Outro exemplo, no Rio Grande do Sul, em algumas áreas (Salto Ventoso, Behne e Gruta) não é permitido proteger com grampos as vias, somente chapeletas homologadas.

Informe-se sobre o melhor tipo de proteção para o local. Por exemplo: Para basalto, em geral, parabolt normal de 3/8 pol. ou 1/2 pol. por  3 pol. é o  padrão. No entanto, dependendo do lugar pode-se usar outro tipo de chumbador e até mesmo químico.

Para arenito: chumbadores do tipo CBA, AF ou OM (esses são os modelos da Âncora, mas podem ser os similares), com parafuso ou barra de 3/8 pol. ou 1/2 pol. por 12cm ou mais. Em alguns casos, o arenito é de tão má qualidade que é necessário usar químico também.

Para conglomerado o ideal é usar a mesma especificação do arenito porque temos sempre a tendência de furar na porção mais arenosa do conglomerado, longe dos seixos.

Para granito e gnaisse: Antes de mais nada, os termos granito e gnaisse são bem amplos e abrangem uma grande variedade de tipo de rocha com propriedades e composições diferentes. Por isso informe-se antes! Como regra geral, parabolt normal de 3/8 pol. ou 1/2 pol. por  3 pol. é o suficiente. Dependo da propriedade da rocha, 2 pol. ou ainda até 4 pol.

Para calcário e mármore: não tenho experiência nesse tipo de rocha.

Em alguns locais da Europa, onde a prefeitura local apóia as conquistas, é praxe um geólogo fazer um estudo prévio com direito a ensaio de laboratório para decidir qual o melhor tipo de proteção para aquele local.

PS: Sobre o diâmetro dos chumbadores - em  áreas  recentes, como em Gorges du Tarn (FRA), região onde aconteceu o Petzl Rock Trip, os chumbadores são de 14mm de diâmetro!!!

Nota sobre o grampo: sei que o uso (ou não) de grampos é uma questão amplamente discutida e que o seu uso varia conforme a ética local. Por exemplo, no Rio Grande do Sul é amplamente banido esse tipo de proteção, por outro lado, no Rio de Janeiro é default. Por isso, mais uma vez, informe-se antes de mais nada.

Pessoalmente sou  contra o uso de  grampos do tipo "P". Afinal de conta, para que nós usamos e exigimos todo equipamento homologado com selo e tudo se o elemento chave que nos mantém preso a rocha na hora H é fabricado no fundo de quintal? Chega ser paradoxal...


Serra do Cipó - MG

Vou pular a parte sobre como equipar uma linha, seja de cima ou de baixo, e ir direto ao ponto: a colocação em sí. No caso, uma chapeleta. Vale lembrar que no site da Âncora e no site da Fixe têm bastante dicas úteis sobre isso.

Bem, uma vez escolhida a área, certifique se de que num raio de 30cm não há zona de fraqueza, tais como, borda (quina, aresta, vértice) fenda, fratura. Tente ficar o mais longe possível disso.

Escolhido a área bata com o martelo na região para certificar se de que não está numa laca ou bloco solto. O som de rocha oca é característico (som grave). Se a rocha estiver sólida o som será bem mais agudo.

Antes de começar a furar, certifique-se de que se na área do furo a chapeleta irá se acomodar bem. Se não ficar legal, mude de lugar e se não tiver opção, use uma talhadeira e homogenize a superfície. Também não se esqueça de colocar uma costura na chapeleta para ver como ficariam os mosquetões. Têm muitas proteções por ai que pelo fato de a chapeleta estar mal posicionada, fica forçando o mosquetão e as vezes até abrindo o gatilho quando recebe carga.

Feito isso, está na hora de fazer o furo. Se estiver usando uma furadeira será rápido. Agora, se estiver usando um batedor... Vai demorar 1 pouco. Em ambos os casos, certifique-se de estar fazendo um furo perpendicular a superfície (90 graus). Nada de ângulos, isso não é grampo nem químico. Também evite mover para os lados a broca enquanto fura, pois isso irá alargar o furo.

O comprimento do furo deverá ser um pouquinho maior que a do chumbador (já com a chapeleta), pois irá alojar uma sujeira no fundo quando colocar o chumbador. Para rochas duras como o basalto e o granito o diâmetro do furo é o mesmo do chumbador. Mas lembre-se: Em algumas chumbadores o diâmetro é medido em milímetro e a broca em polegada, ou o contrário! Fique atento a esse detalhe, porque isso faz uma grande diferença, principalmente se estiver furando com batedor. Em arenito, dependendo da qualidade, usa-se uma broca com diâmetro 1 ou 2 mm menor que o do chumbador para entar bem apertado.

Uma vez feito o furo, está na hora de limpá-lo. Pode ser com uma mangueira ou uma bisnaga. O importante é remover toda a sujeira que está dentro do furo.

Depois de limpo, martele o chumbador com a chapeleta. Tenha cuidado para não estragar a rosca e/ou o parafuso ao martelar.

E por fim, dê o torque. Aos fortões de plantão: cuidado para não forçar o torque final, porque pode cisalhar o parafuso e quebra-lo. O ideal é usar um torquímetro. Inclusive no site da Fixe tem até uma tabela de torque.

Pronto, eis uma proteção bem colocada!

Sobre a colocação de grampo, como não sou a favor, não irei passar os betas. E sobre proteção química, não tenho experiência, mas nesse link da Fixe tem um passo-a-passo em inglês muito bom!


Baldim dando o torque final. Setor Capeta, Viana - ES.

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